Todo mês de abril resgatamos a história de pessoas que foram presas políticas na Ditadura Militar (1964-1985), onde generais por mais de 21 anos se tornaram presidentes e não havia consulta popular. Quem opusesse ou ajudasse os inimigos políticos poderiam ser mortos e torturados. A jovem Anatália tentou lutar contra o regime e acabou como morta, assim como Virgílio e Luiz Maranhão.
Seu nome completo é Anatália de Souza Melo Alves e nasceu na cidade de Frutuoso Gomes. Mas, desde que tinha cinco anos, se mudou para Mossoró. Após terminar seus estudos trabalhou na Cooperativa de Consumo Popular.
Residiu em Mossoró até se casar com Luiz Alves Neto em novembro de 1968, quando passou a viver em um conjunto popular do Fundo de Habitação Popular do Estado de Pernambuco (Fundap), em uma casa simples.
A luta camponesa e a prisão

Apesar de não ter formação política, aproximou-se, assim como seu marido, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Por conta disso, após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), mudaram-se para Recife, atuando na Zona da Mata (PE) para lutar por melhores condições aos camponeses.
Anatália foi presa no dia 17 de dezembro de 1972 por agentes DOI-CODI, do IV Exército, em Recife, e levada ao local misterioso, juntamente com os militantes Edimilson Vitorino de Lima e Severino Quirino Miranda.
Os últimos registros mostram que ela esteve viva até o ano de 1973, quando foi supostamente encontrada morta. Segundo versão apresentada pelos órgãos de segurança produzido pela Delegacia de Segurança Social, Anatália teria se enforcado com a tira de sua bolsa enquanto tomava banho nas dependências da própria delegacia, ocasião em que estava sob a vigilância do agente policial Artur Falcão Dizeu.
Mas, não foi assim que os legistas discordam
O Instituto de Polícia Técnica (IPT) de Pernambuco, por sua vez, comentou que Anatália encontrara numa cama de campanha, contrariando a versão da morte dela no banheiro. De acordo com a análise pericial, sua morte teria sido causada por asfixia por enforcamento. Um fato obscuro, entretanto, chama a atenção para a violência presente no caso. A análise das fotos do laudo de perícia de local de ocorrência indica que queimaduras em seus órgãos genitais.
O laudo já citado, produzido pelo IPT, também reforça a evidência, esclarecendo que duas peças do vestuário usado pela vítima estavam parcialmente queimadas. Esse fato corrobora as declarações de algumas testemunhas, que afirmaram que Anatália foi vítima de diversos tipos de tortura, incluída violência sexual.
As marcas de queimaduras se iniciavam na região pélvica, o que aponta para uma tentativa de eliminar os indícios de violência sexual. Ao mesmo tempo, um dos elementos que apontam para a inconsistência da versão apresentada pelos órgãos de repressão é o fato de uma presa incomunicável estar portando uma bolsa.
Seu corpo nunca encontraram
Outro elemento que relativiza a versão de suicídio é o tamanho da alça da bolsa. Anatália foi sepultada sem que a família tomasse conhecimento e sem que lhes fosse entregue a certidão de óbito.
Inicialmente, um corpo já tinha sido exumado e disposto em uma urna lacrada, supostamente contendo os restos mortais de Anatália. Foi entregue aos seus familiares em 1975, com a recomendação de que não a abrisse em nenhuma circunstância. Sendo assim, os restos mortais carecem, ainda, de plena identificação. Logo, ninguém sabe se este era realmente a Anatália.

